Nutrição infantil: tempo de investir em boas escolhas
Paciência, equilíbrio e entendimento sobre a qualidade dos alimentos podem fazer grande diferença para conciliar o estilo de vida moderno com escolhas mais saudáveis e inteligentes na alimentação infantil.
A alimentação é um dos fatores determinantes da saúde, especialmente, nos primeiros anos de vida. A nutricionista Giselle Leão, da clínica de Atenção Primária à Saúde (APS), da Copass Saúde, em Montes Claros, fala sobre a importância de promover o contato e o vínculo saudável da criança com a sua alimentação, orienta sobre o papel da família neste processo e dá dicas para fazer escolhas mais apropriadas, evitando excessos com parcimônia e conhecimento.
Qual a importância de saber escolher melhor os alimentos na infância?
A infância é um período de desenvolvimento e formação dos hábitos alimentares, que tendem a acompanhar o indivíduo ao longo da vida. É na primeira infância que o paladar da criança é moldado e vai evoluindo com o tempo. Se bons hábitos são formados nessa fase, quando chegar a vida adulta, o indivíduo vai saber fazer melhores escolhas alimentares dentro e fora de casa.
Por isso, é importante que os pais ou responsáveis pela criança proporcionem a ela o contato mais próximo e variado com alimentos saudáveis, naturais. Assim, a criança vai se familiarizando com esses alimentos e se acostumando com a dieta que todos da casa devem ter. O exemplo é fundamental. Quando a família não tem uma rotina alimentar saudável, dificilmente a criança consegue se comportar de forma diferente.
Além da formação do hábito, uma alimentação adequada na infância é essencial para prevenir doenças, melhorar o desempenho escolar e garantir o fornecimento dos nutrientes necessários para o crescimento saudável. Atualmente, é alarmante o número crescente de crianças com obesidade, resistência à insulina, colesterol elevado e outras condições antes mais comuns em idosos. Esse cenário é reflexo da má alimentação, baseada em produtos industrializados e ultraprocessados.
Como evitar a seletividade e a rejeição das crianças em relação à introdução de novos alimentos?
Para desenvolver bons hábitos alimentares, a criança precisa ter contato direto com os alimentos e, hoje, muitas não sabem nem identificá-los. Atividades simples, como ir à feira com um adulto ou participar do preparo de receitas, por exemplo, são oportunidades valiosas de aprendizado e familiarização.
Quanto à seletividade, é importante lembrar que se a criança recusa um alimento, uma vez, não significa que ela não gosta. Crianças pequenas estão explorando o mundo e podem se distrair facilmente com brincadeiras ou telas, o que reduz o interesse pela comida. A aceitação leva tempo e pode ser necessário oferecer o mesmo alimento de 8 a 10 vezes, em preparações e contextos diferentes. Para tanto, paciência e respeito ao tempo da criança são fundamentais, o que muitas vezes falta no dia a dia das famílias. Se a criança diz que não quer, os pais tendem a não insistir, perdendo a chance de novas tentativas.
Outro ponto essencial, novamente, é o exemplo da família. A alimentação da criança deve ser a mesma da família. Separar cardápios ou manter hábitos ruins em casa compromete todo o processo. A alimentação saudável precisa ser rotina para todos.
O que pode ser considerado como uma dieta ideal na infância?
A dieta equilibrada é aquela que contempla todos os grupos alimentares, distribuídos de forma adequada conforme a pirâmide alimentar. Na base estão os alimentos fontes de carboidratos complexos, como mandioca, batata, arroz, pães e massas, que são responsáveis por fornecer energia ao organismo. Eles devem estar presentes nas principais refeições, preferencialmente em suas versões integrais. Já preparações como bolos e biscoitos devem ser consumidas apenas em momentos ocasionais, dando preferência às versões caseiras e com ingredientes mais naturais. Acima dos carboidratos está o grupo das hortaliças e frutas, fontes de vitaminas e minerais, importantes para o desenvolvimento físico, cognitivo e do sistema imunológico. Logo acima fica o grupo das proteínas, essenciais para a formação de músculos e tecidos do organismo. E lá no topo estão os açúcares e gorduras, que devem ser consumidos em quantidade mínima ao longo do dia. O prato tem que ser colorido porque isso representa uma dieta diversificada. E o ideal é consumir mais alimentos in natura ou minimamente processados.
Além de priorizar uma alimentação nutritiva, é preciso limitar o consumo dos alimentos industrializados, que são cada vez mais comuns na dieta das famílias. Os alimentos ultraprocessados, em geral, têm muito sódio, açúcar e gordura. E isso favorece o desenvolvimento de doenças crônicas como diabetes, obesidade.
Dá para conciliar a dieta das crianças de forma saudável, mantendo determinados produtos industrializados? Como equilibrar?
Desde que as escolhas sejam conscientes e propícias ao momento, cabe de tudo um pouco. O que é importante na alimentação é a combinação dos grupos de alimentos e todos podem ser consumidos, mas com equilíbrio. É importante entender os tipos de alimentos disponíveis para saber dosar o consumo:
. naturais (in natura), como frutas, verduras e legumes, ou minimamente processados, como arroz, feijão, carne, podem ser consumidos sem restrições;
. processados, como iogurtes, queijos, pães, algumas conservas, entre outros, devem ser consumidos com moderação porque, em geral, recebem adição de açúcar, sal ou gordura;
. ultraprocessados, como salgadinhos de pacote, bolachas recheadas, macarrão instantâneo e outros devem ser evitados ou consumidos apenas em ocasiões pontuais, pois contêm aditivos químicos e fornecem muitas “calorias vazias”, com poucos nutrientes. Consumir esses alimentos de vez em quando, em situações pontuais, não tem problema porque faz parte da vivência da criança. O que não pode é fazer parte da rotina alimentar ou ter fácil acesso dentro de casa.
Um erro comum das famílias é oferecer às crianças lanches compostos apenas por carboidratos. Quando frequente, isso pode elevar a glicose e favorecer o ganho de peso. É importante combinar os grupos de alimentos, como proteínas (queijo, patê, iogurte) ou gorduras boas (abacate, castanhas, azeite de oliva extravirgem) junto ao carboidrato. Além disso, deve-se priorizar sempre a fruta inteira em vez do suco coado, que perde boa parte dos nutrientes e concentra apenas o açúcar da fruta. Quanto ao iogurte, o ideal é escolher versões com menos ou sem açúcar, que pode ser batido com frutas para adoçar naturalmente.
Olhar o rótulo pode ajudar a escolher melhor os industrializados?
Para tudo, hoje, o rótulo é a referência. Através da rotulagem é possível escolher o alimento, identificando a sua qualidade nutricional e o que tem em excesso. Mas os rótulos podem confundir também. É bom observar algumas dicas:
. Sempre leia a rotulagem frontal, pois ela indica de forma clara se o alimento é alto em açúcar, sódio ou gordura;
. Prefira produtos com poucos ingredientes adicionados. Se o rótulo apresenta mais de cinco nomes desconhecidos ou difíceis de entender, é melhor procurar outra opção;
Observe a ordem em que os ingredientes aparecem. Os ingredientes aparecem em ordem decrescente, ou seja, o primeiro ingrediente é o que tem em maior quantidade;
. Cuidado com os diversos nomes do açúcar, pois ele pode aparecer disfarçado como melado, melaço, maltodextrina, glucose, entre outros. Quanto mais formas de açúcar no alimento, menor a sua qualidade nutricional.
Esse conteúdo foi produzido por meio do convênio Saúde em Dia, uma parceria entre Copass Saúde e GNSS – Gerência de Saúde e Segurança do Trabalho da Copasa.