Fale da sua família com o seu médico
É fundamental que o paciente converse com o médico sobre o seu histórico e as questões familiares, pois, nesse contexto, estão as bases da saúde e da doença, além do apoio necessário para um cuidado efetivo.
Convidamos o médico da clínica de Atenção Primária à Saúde (APS) da Copass, em Divinópolis, Dr. Gustavo Nogueira Coelho, para um bate-papo sobre a influência da família na saúde dos pacientes. Ele ressalta, antes de mais nada, que o ser humano é biopsicossocial, sendo moldado por suas características biológicas (físicas) e, também, por questões psicológicas, como desejos, motivações e medos, além do ambiente social em que está inserido – nesse âmbito, a influência familiar está presente em todos os aspectos.
O doutor explica que as relações familiares são, em geral, os contatos com os quais há maior troca e proximidade, estando frequentemente ligados a apoios ou atritos, o que afeta diretamente a saúde e o bem-estar dos envolvidos. Isso faz com que o cuidado do ser humano precise ser integral, entendendo-o como um todo, de modo que, portanto, não é possível separar o indivíduo da sua relação com seus entes próximos.
“A família precisa, sempre, ser levada em consideração nos processos de saúde e doença do paciente, porque ela interfere na melhora ou na piora das suas condições físicas e mentais, dependendo das características e da qualidade das relações”, afirma o médico.
Confira, a seguir, as demais ponderações do Dr. Gustavo:
A família como fonte de informação para o cuidado
Uma das partes fundamentais de uma anamnese bem colhida é o levantamento do histórico familiar do paciente, o que considera os padrões genéticos e sociais repetidos em sua família.
Além das doenças hereditárias, como determinados tipos de câncer, patologias cardiovasculares, diabetes e outras, é comum o acompanhamento de famílias com vasto histórico de doenças psiquiátricas, o que pode estar ligado tanto a fatores genéticos quanto à repetição de um padrão. Por isso, é fundamental compreender o modo de funcionamento do núcleo familiar do paciente e a influência que ele exerce sobre o seu comportamento, o que pode tender à repetição.
Por exemplo, para além da influência genética, uma criança que vive com familiares ansiosos tem mais chance de apresentar quadros de ansiedade ou depressão, porque isso já está presente no modo de agir do seu grupo familiar. Também, pessoas que sofrem violência doméstica podem tender a desenvolver transtornos psiquiátricos, ou, até mesmo, reproduzir a violência sofrida em seu núcleo familiar, futuramente.
Ambiente acolhedor ou adoecedor
As relações familiares podem ser promotoras do bem-estar, como um espaço de suporte emocional e afetivo, ou do adoecimento, dependendo do ambiente, dos conflitos e das dificuldades de interação entre os membros. Nesse sentido, um olhar atento para dentro de casa permite encontrar tanto as fontes de muitos problemas quanto apoios importantes para resolvê-los. Por exemplo, questões traumáticas, como abuso sexual, violência física e homofobia são comuns em muitos lares e estão na origem da piora da saúde física e mental de crianças, adolescentes, adultos e idosos. Nesse âmbito, a ação e o apoio de um familiar podem ser fundamentais para a recuperação e a promoção da saúde da vítima: “O ambiente familiar não deve ser um lugar de repetição de padrões de violência e segregação que a sociedade já impõe fora de casa, mas, sim, um local de acolhimento, amor, cuidado e, consequentemente, saúde.”.
Como construir uma relação de confiança
Para que o profissional deixe o paciente à vontade para se abrir sobre questões familiares mais profundas, é necessário ter paciência para acolher e investigar as demandas, além de empatia diante da condição apresentada. Isso significa “colocar-se no lugar do paciente”, para ouvi-lo, com atenção e excelência: “A magia da medicina é lidar com a diversidade e saber se adequar a universos diferentes. É importante, também, que haja um ambiente acolhedor e confortável para o paciente, além de um tempo adequado de atendimento, como oferecemos na nossa APS. Isso é essencial para construir um terreno seguro e de intimidade, o que demanda tempo e varia, de acordo com o perfil de cada beneficiário.”.
A partir dessa abordagem, o paciente pode confiar na capacidade do seu médico de captar suas necessidades, com sigilo e sem julgamento, e direcionar, da melhor forma, o seu tratamento, frequentemente, fazendo a interlocução para que a família possa auxiliar nesse cuidado.
Rede de apoio e cuidado coletivo
Para garantir a atenção integral ao paciente, é essencial uma atuação centrada na família, reconhecendo perfil, valores, contextos e demandas e, sempre que possível ou necessário, incluindo-a no cuidado: “Envolver a família no processo é um trunfo do qual, com frequência, lançamos mão, para a promoção da saúde do paciente. Por isso, colocamos a família no rol do que chamamos de ‘rede de apoio’.”.
Além de contar com membros da família para manter o cuidado adequado ao paciente, a atenção também pode ser estendida a eles, inclusive em uma consulta conjunta: é comum que sejam feitas intervenções que são mais eficientes quando alcançam todo o grupo familiar (com exceção, é claro, dos casos em que o paciente solicita o atendimento individual, por exemplo, preocupado com o sigilo e a individualização do cuidado). São exemplos de cuidados conjuntos familiares: orientações relativas a vacinas, que visam a proteger o paciente e a todos; questões nutricionais, como nos casos de pacientes com obesidade que se beneficiam de uma dieta feita em conjunto com a família; e questões psicológicas, como pacientes depressivos ou aqueles cujo sofrimento causado pela doença afeta emocionalmente os entes mais próximos.
Na atenção primária, o paciente conta com uma equipe multidisciplinar, que pode ajudar a família como um todo, intervindo de diversas formas: “Com a assistência ampla e multiprofissional, conseguimos oferecer um cuidado mais eficiente, desenvolvendo ações integradas, para promover a saúde do paciente e, consequentemente, de toda a família.”.
Esse conteúdo foi produzido por meio do convênio Saúde em Dia, uma parceria entre Copass Saúde e GNSS – Gerência de Saúde e Segurança do Trabalho da Copasa.