Dependência química: entenda os sinais e saiba o que fazer
Álcool, tabaco, medicamentos, drogas ilícitas são exemplos de substâncias usadas, muitas vezes, como fuga e alívio para as dores da vida, mas que podem acabar aprisionando e causando mais sofrimento.
A dependência química é mais comum do que se imagina e, em muitos casos, pode ser mal interpretada, não ser percebida ou ter a sua gravidade desconsiderada.
Para o Dr. Fábio Brandão, psiquiatra do centro de atenção psíquica Freud Cidadão, credenciado à Copass Saúde, é fundamental combater o estigma em relação ao dependente, pois é um indivíduo que está em intenso sofrimento, mesmo quando não reconhece o seu vício e os prejuízos que ele causa. “São pessoas que precisam de auxílio, acolhimento e escuta para se tentar construir uma outra maneira de levar a vida, de forma menos restritiva.” O psiquiatra explica como identificar a dependência química e o que fazer diante dela:
– O que é a dependência química e quais os tipos mais comuns?
A Organização Mundial de Saúde considera substância psicoativa como qualquer substância, natural ou sintética, que afeta a estrutura ou o funcionamento cerebral. O consumo frequente pode causar dependência que, em geral, é associada no Brasil às drogas ilícitas, como maconha, cocaína, anfetaminas, crack, mas também inclui o álcool, tabaco e medicamentos, como os benzodiazepínicos.
Para identificar a dependência química é necessário observar três aspectos básicos:
Prioridade – a substância ocupa um espaço muito importante na vida da pessoa, que abandona progressivamente outros prazeres e passa grande parte do seu tempo pensando em como obtê-la, intoxicada por ela ou se recuperando do seu uso.
Tolerância – a pessoa precisa de doses cada vez maiores da substância para sentir os mesmos efeitos.
Abstinência – ao parar abruptamente de consumir a substância, o organismo reage de forma negativa e a pessoa sente um grande mal-estar.
Outro aspecto muito importante acerca das dependências é que os sujeitos mantêm o uso da droga mesmo quando fica evidente que seu uso está sendo nocivo para si e para terceiros.
– O que leva uma pessoa a se tornar dependente?
A relação de cada pessoa com cada substância é única. Isso não tem a ver só com a química da droga, mas com a história daquele sujeito e suas questões durante a vida. A dependência química é algo multifatorial. Muitas vezes, ela entra na vida da pessoa na tentativa de aplacar ou aliviar sofrimentos causados por diversas situações: abusos sofridos na infância, adoecimento mental, dificuldades de lidar consigo mesmo e o próprio corpo, relações familiares conflituosas, dinâmicas laborais estressoras e degradantes, entre outras. Contudo, em algum momento, a pessoa perde o controle acerca deste consumo e passa a utilizar a droga de maneira prejudicial para sua vida.
Há, ainda, o estigma criado pela sociedade, que discrimina o dependente químico, considerando-o como vagabundo, mal caráter, fraco, sem de força de vontade. Esse estigma reforça o sofrimento e dificulta o reconhecimento das reais causas que construíram essa relação do sujeito com a droga.
– Um indivíduo pode se tornar dependente em qualquer idade? Existem idades mais vulneráveis?
A dependência química pode estar presente em diversas fases da vida – adolescência, vida adulta e mesmo quando idoso. Contudo, a maior prevalência se encontra entre adultos jovens e os homens têm uma taxa de dependência superior às mulheres.
Os adolescentes, por estarem ainda em fase de maturação cerebral, ficam mais vulneráveis ao uso das substâncias. Isso porque elas podem afetar o seu desenvolvimento neurológico, gerando consequências no processo de construção das relações, nos estudos, no trabalho, amorosas, familiares e que podem levar, no futuro, à dependência química. É um grupo muito importante para a prevenção do consumo problemático de substâncias.
Idosos também precisam de mais atenção. O processo de fragilização causado pela idade – não só do corpo, mas social, como perda de renda, declínio das funções físicas e cognitivas -, aumenta o risco de desenvolver transtornos psiquiátricos como quadros depressivos e a dependência química. Isso, muitas vezes, dificulta a identificação e muitos não buscam atendimento.
– Até que ponto o consumo pode ser considerado como social ou recreativo e quando se torna dependência?
O uso recreativo diz respeito ao uso lúdico e partilhado com outras pessoas e não causa prejuízos para o cotidiano de vida. Quando a gente fala em dependência química tem que ser algo que, obrigatoriamente, traga algum prejuízo para quem usa ou para terceiros. O consumo do álcool, por exemplo, é não somente legalizado, como culturalmente aceito e até incentivado. Acaba que, em função da realidade que a pessoa está enfrentando, ela pode extrapolar o uso recreativo, sem prejuízos, e passar para uma condição de dominância dessa substância sobre a sua vida. O impacto da dependência é sempre grande e pode envolver rompimento de laços sociais, risco de vida, de acidentes, violência doméstica, entre outras coisas. Quando esses impactos começam a aparecer, percebe-se que esse consumo não é mais no campo do uso recreativo.
– Quais os sinais da dependência química?
A dependência faz com que a pessoa fique mais restrita à atividade de contato com a substância, deixando de fazer coisas que fazia antes. É importante perceber um aumento do consumo, um distanciamento social para buscar a substância, atrasos em compromissos, dificuldade de se manter em lugares onde não tem acesso à substância, irritabilidade.
A sensação de mal-estar causada pela falta da substância, chamada síndrome de abstinência, também pode ser observada. Alguns dos sinais da abstinência são mal-estar, náusea, tremores, suor excessivo, aumento da pressão arterial.
– O que se deve fazer ao perceber que uma pessoa próxima está se tornando dependente? E o que não se deve fazer?
O que não se deve fazer é o julgamento moral. Não criar rótulos ou culpar a pessoa, que já é historicamente estigmatizada e excluída pela sociedade. Esse estigma deixa a pessoa ainda mais reclusa e com dificuldade de falar sobre as questões que levaram à dependência.
A melhor maneira de abordar o dependente é acolher e estar aberto a escutar o que ele tem a dizer sobre o que está acontecendo. Contudo, muitos não têm consciência, não reconhecem que fazem um uso nocivo da substância, o que é um complicador tanto para os familiares quanto para os profissionais que podem tratar a dependência. De toda maneira, isso não impede quem está próximo de ofertar acolhimento e ajuda para buscar algum tipo de tratamento.
– Como é o tratamento de um dependente químico?
Para tratar o paciente é preciso reconhecer sua singularidade e a função que aquela substância exerce em sua vida. Tudo é muito individualizado e depende do grau de dependência que a pessoa apresenta, dos danos já causados e dos riscos que essa condição pode causar.
De acordo com a gravidade do caso, podem ser necessárias internação clínica – para recuperação das condições físicas ou quadros de abstinência –, ou mesmo internação psiquiátrica para tratamento da dependência e/ou de transtornos de base como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia. Na maioria dos casos, entretanto, é possível realizar o tratamento em nível ambulatorial ou em regime de clínica dia, onde é possível trabalhar com cada sujeito se o melhor caminho é o da abstinência completa da substância ou a partir de redução de danos – onde o trabalho é mais de reduzir do que retirá-la.
Quando a droga é retirada, é preciso lidar com o sofrimento que levou ao uso. É benéfico inserir o paciente em tratamentos multiprofissionais, em grupos terapêuticos que, através do compartilhamento de estratégias, ajudam o sujeito a construir estratégias para lidar com a dependência e com as questões que o fizeram buscar a droga. O trabalho com os familiares para ampliar suas condições de apoiar o dependente também é fundamental.
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>> Esse conteúdo foi produzido por meio do convênio Saúde em Dia, uma parceria entre Copass Saúde e GNSS- Gerência de Saúde e Segurança do Trabalho da Copasa.