Comunicação não-violenta: a melhor forma de dizer o que precisa ser dito
Imagine conviver em um ambiente onde as relações são respeitosas, transparentes, saudáveis e sem julgamentos. Parece utopia? Pois é o que propõe a Comunicação Não-Violenta (CNV), uma prática que vem ganhando espaço e tem por objetivo gerar mais compreensão e colaboração entre as pessoas, através da maneira como se expressam.
A psicanalista e assistente social da Copass Saúde, Claudimara Antunes, explica que há uma tendência em relacionar situações violentas apenas à agressão física, mas pode existir grande violência na fala de uma pessoa, que muitas vezes é velada ou imperceptível, tanto para o receptor quanto para o emissor. E boa parte dos conflitos surgem a partir do que é dito ou não dito, afinal, a comunicação permeia todas as relações humanas.
O QUE É A COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA
Para Claudimara, fazer uma comunicação não-violenta é se relacionar na linha do equilíbrio, onde tanto o próprio discurso como a interpretação da fala do outro não são passivos, nem agressivos.
Toda vez que a fala traz, de alguma forma, julgamentos, acusações, críticas, rótulos, comparações, a mensagem se torna violenta. A comunicação equilibrada é aquela que traz na fala o oposto, ou seja, um sentido de compaixão, respeito, atenção e empatia pelo outro, mesmo que seja em uma posição de discordância.
COMPONENTES DA COMUNICAÇÃO NÃO VIOLENTA
A prática da CNV é baseada em quatro focos de atenção:
. Observação – separar o que de fato aconteceu em uma situação das avaliações que fazemos sobre ela, descrevendo na fala apenas a percepção do fato, sem interpretações ou conclusões.
. Sentimentos – entender e expressar na fala quais sentimentos a situação observada desperta, expondo nossas fragilidades. Não é o que pensamos sobre a situação, mas como nos sentimos em relação a ela.
. Necessidades – são as motivações que levam a discutir o assunto. Ter consciência de nossas necessidades diante de uma situação e expô-las através da fala, facilita a busca por alternativas para solucionar conflitos.
. Pedidos – expor de forma clara o que é preciso que o outro faça para atender às necessidades apresentadas. É dar ao outro a oportunidade de colaborar, lembrando que o pedido não pode ser uma exigência, devendo sempre haver abertura para ouvir um “não” como resposta.
O FOCO É VOCÊ
A CNV se trata de falar sobre si mesmo. “Quando a fala é sobre o outro, ele tende a recebê-la numa postura de autodefesa. Já quando eu falo de mim, da minha percepção sobre a situação, por mais que tenha a ver com o comportamento do outro, ele se torna mais receptivo à minha mensagem”, explica a psicanalista. “A chance dessa atitude trazer boas soluções e diálogos construtivos é muito grande.”
É preciso ter cuidado e empatia. Hoje, principalmente no mundo virtual, as pessoas estão muito estimuladas a se colocar, expor suas opiniões sobre tudo, e isso, não raro, acontece de forma violenta. Nesse ambiente, a CNV se torna cada vez mais essencial para que cada um possa rever sua forma de expressão e como ela afeta o outro.
COMO COLOCAR EM PRÁTICA?
Praticar a CNV pode não parecer fácil, mas é possível desde que a pessoa se disponha a ter responsabilidade com a forma de se comunicar, independente da postura do outro. É uma questão de decisão, de opção por um novo jeito de se expressar como parte de um plano de melhoria pessoal.
Isso não acontece de uma hora para outra, pois é uma habilidade a ser desenvolvida, ressalta Claudimara. É preciso manter a auto-observação constante, conhecer os componentes da CNV e se propor a adotá-la diariamente. A prática é fundamental. Quanto mais se pratica a comunicação equilibrada, mais naturalmente ela acontece.
Para além disso, quando a pessoa consegue emitir mensagens não-violentas, ela também é capaz de interpretar a mensagem do outro dessa maneira, mesmo que não emitida nesse formato. É tentar compreender os motivos e as dificuldades que podem estar por trás de uma fala violenta e reagir de outra forma, “desarmada” e respeitosa.
BENEFÍCIOS
Em qualquer ambiente, a CNV propicia mais qualidade nas relações. Segundo a psicanalista Claudimara, quem pratica está investindo em seu crescimento pessoal e em um novo olhar sobre as pessoas.
A mensagem transmitida de maneira equilibrada pode gerar em quem a recebe uma reavaliação da sua forma de agir e de se comunicar. Quando uma pessoa faz o movimento, responsabilizando-se por uma comunicação adequada, isso pode tocar o outro naturalmente, estimulando-o a fazer o mesmo.
No ambiente organizacional, a prática da CNV, cria um clima mais agradável e saudável para todos, com relações mais valorosas. O desgaste, a competição, a necessidade de defesa e boa parte dos conflitos perdem força. O ganho é para quem pratica, para o outro, para a equipe e, consequentemente, para os resultados da empresa.
Enfim, a CNV não é a solução para todos os conflitos, mas é um passo importante, afirma Claudimara. Ela cita uma frase de Gandhi para explicar esse potencial: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Os pequenos movimentos que cada um dá conta de fazer trazem melhorias muito significativas.