Como combater o etarismo no trabalho
As pessoas estão vivendo mais e melhor. Hoje, aos 60 anos, grande parte da população continua ativa, produtiva e saudável. Contudo, o preconceito da sociedade em relação à idade é uma realidade que dificulta a permanência de pessoas mais velhas no mercado de trabalho, quando ainda têm muito a contribuir.
O etarismo, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), se refere a preconceitos, estereótipos e discriminação direcionados às pessoas apenas com base na idade que têm. Isso pode afetar tanto jovens quanto idosos, mas, no ambiente profissional, o etarismo é mais forte em relação aos trabalhadores 50+.
Segundo a psicanalista e assistente social da Copass Saúde, Claudimara Antunes, esse preconceito está intimamente ligado à percepção do envelhecimento no Brasil, que ainda é muito pejorativa. “Discutir o etarismo é também enfrentar a cultura que desvaloriza o envelhecer. Precisamos enxergar essa fase como uma continuação natural da vida e da carreira, não como um fim. Profissionais com 50, 60 anos ou mais que seguem ativos não devem ser vistos com desdém ou pena, mas como fontes valiosas de experiência e conhecimento. O etarismo retira da pessoa o sentimento de pertencimento.”
COMO O ETARISMO SE MANIFESTA
A psicanalista explica que o etarismo no trabalho, geralmente, se manifesta de forma sutil e inconsciente, e não de maneira intencional ou estratégica. Muitas vezes, está ligado à ideia cultural de que os mais jovens são mais aptos para grandes desafios ou tarefas que exigem mais energia, o que acaba excluindo, de forma velada, profissionais 50+. Isso fica evidente quando um empregado é deixado de lado em novos projetos ou em falas como: “já está perto da aposentadoria” ou “já passou a sua fase”.
Pelo lado das empresas, isso acontece, por exemplo, ao reduzir demandas ou envolver menos o profissional nos projetos, sob a suposição de que ele não é mais capaz de lidar com grandes responsabilidades. É claro que algumas tarefas exigem mais energia ou conhecimento técnico de ponta, o que pode ser desafiador para alguém com mais idade. No entanto, diz Claudimara, a falta de preparo imediato não diminui a capacidade do profissional de entregar bons resultados. Por outro lado, um trabalhador jovem, com mais energia e conhecimento atualizado, pode carecer da maturidade e postura necessárias para lidar com certos desafios que um trabalhador com mais experiência pode oferecer.
CONSEQUÊNCIAS PARA TODOS
O etarismo sempre gera um impacto emocional significativo no trabalhador e perdas para todos, afirma a psicanalista. A exclusão precoce de um profissional do mercado afeta não apenas a sua estabilidade financeira, mas também o seu bem-estar social e mental, podendo resultar em adoecimento, como a depressão.
Para as empresas, a principal consequência do etarismo é a perda de talentos e de vivências que poderiam agregar valor aos resultados, tornando-os mais consistentes. Isso enfraquece a organização e reforça a cultura de desvalorização da experiência em favor da atualização técnica constante.
COMO COMBATER O PRECONCEITO
Investir no combate ao etarismo não é fácil, mas é recompensador e essencial para criar um ambiente inclusivo. Ao se dedicarem a esse tema, as empresas precisam desenvolver políticas e programas de capacitação que promovam a valorização das diferentes gerações, o que melhora o diálogo, a colaboração, o respeito mútuo.
“O equilíbrio intergeracional é o melhor caminho”, ressalta a psicanalista. Um projeto de sucesso não vem só de conhecimento técnico e inovação, mas também de atitude, postura, comportamento, análise crítica. Neste contexto, as gerações se complementam e, juntas, podem alcançar resultados bem favoráveis.
Outra iniciativa importante é sensibilizar os colaboradores sobre o etarismo para que todos compreendam seu impacto. Além disso, manter o equilíbrio nas remunerações para funções semelhantes, com base na entrega e não na idade, evita rivalidades e insegurança. Enfim, combater o etarismo exige mudar mentalidades e criar um ambiente onde todos se sintam pertencentes, reconhecendo o potencial de cada um.
AMBIENTE DE COLABORAÇÃO INTERGERACIONAL
Cabe às empresas promoverem a integração, onde talentos de todas as idades possam colaborar, aprender e crescer juntos. Quando essa convivência é estimulada de forma contínua e estratégica, o etarismo perde espaço, afirma Claudimara.
No ambiente profissional, dar espaço ao outro pode ser percebido como risco pelo trabalhador, mas é papel da empresa mediar esse processo com treinamentos, capacitação de lideranças e políticas que valorizem tanto a experiência quanto a inovação. Quando fica claro que o objetivo é unir forças — e não gerar competição — cada profissional passa a reconhecer o valor de somar.
| COMO SE PREPARAR AGORA Todo profissional está sujeito a enfrentar o etarismo, seja agora ou futuramente. Em um mercado cada vez mais dinâmico e desafiador para todas as gerações, a dica da psicanalista Claudimara para evitá-lo é continuar aprendendo e mostrando com atitudes que competência não tem idade, tem valor. “Para ser respeitado como profissional 50+, não basta reivindicar esse reconhecimento. É preciso se manter atualizado, engajado e produtivo. Investir em aprendizado contínuo, adaptar-se às mudanças da área e cultivar um bom networking são atitudes que demonstram capacidade e ajudam a fortalecer a autoestima e o sentimento de pertencimento.” A combinação entre conhecimento técnico e a bagagem adquirida ao longo da carreira — como postura, relacionamento e repertório — torna o profissional 50+ altamente qualificado e relevante. Claudimara conclui ainda que é natural que a disposição mude com o tempo, mas isso não diminui o valor da experiência quando aprendemos a valorizá-la. Afinal, atualização técnica está ao alcance de todos, mas adquirir vivência leva tempo e depende dos erros e acertos de todo o caminho. |
Esse conteúdo foi produzido por meio do convênio Saúde em Dia, uma parceria entre Copass Saúde e GNSS – Gerência de Saúde e Segurança do Trabalho da Copasa.