Tempo de reconhecer e acolher a neurodiversidade
O cérebro humano tem variações neurológicas naturais, o que possibilita a existência de pessoas neurodiversas. Assim, não existe jeito certo ou errado, apenas formas diferentes de funcionamento cerebral.
A neurodiversidade é um conceito ainda novo, que surgiu no final da década de 1990 para demonstrar que a mente pode funcionar de diversas maneiras e que os transtornos do neurodesenvolvimento podem ser encarados como variações da normalidade, ou seja, daquilo que se considera mais típico e maioria entre a população.
Para a Dra. Laura Thiersch, neuropediatra da clínica Acolher Neuro, credenciada à Copass Saúde, ampliar a consciência sobre neurodiversidade é fundamental para combater o preconceito e o estigma em relação às pessoas neurodivergentes. Além disso, muitas delas não reconhecem ou não sabem da sua condição, que é comum e cada vez mais prevalente.
COMPREENDENDO A NEURODIVERSIDADE
A neurodiversidade considera que existem pessoas neurotípicas, aquelas cujo funcionamento neurológico acontece de acordo com os padrões apresentados pela maioria da população, e pessoas neurodivergentes, aquelas que apresentam um padrão que é apenas diferente do típico, e não somente um “problema” a ser corrigido, explica a médica.
As principais condições consideradas como neurodivergentes são o transtorno do espectro autista (TEA) e o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), além de deficiências intelectuais, transtornos de aprendizado como dislexia e discalculia, transtornos de personalidade entre outros.
QUESTÃO DE EQUIDADE
Segundo a neuropediatra, antes, a tendência era centralizar na assistência médica a atenção às condições neurodivergentes, reforçando a ideia de doenças que precisam de tratamento. O foco dessa atenção era tratar a pessoa para encaixá-la na sociedade, muitas vezes, sem levar em conta a sua autoestima e gerando transtornos mentais, como ansiedade e depressão.
Hoje, entende-se que, além da atenção médica e multidisciplinar, é necessária uma adaptação da sociedade como um todo, visando a aceitar e incluir essas pessoas. Os neurodivergentes também têm pontos fortes e positivos, como qualquer um. “Os autistas, por exemplo, podem ter dificuldade para ver todo um contexto, mas são muito bons na atenção aos detalhes”, diz a Dra. Laura. “Quando conseguimos ter um olhar mais amplo, valorizando as habilidades de cada um, é possível tornar essas pessoas produtivas, incluindo-as na escola, no trabalho, na sociedade, sem focar apenas em suas dificuldades.”
É um movimento social e político, que envolve mudanças nos ambientes de convívio para adaptar as situações às particularidades de cada pessoa, entendendo que o diferente não é errado e que nem todos são neurotípicos. Isso é equidade e valorização da neurodiversidade.
COMO RECONHECER E ACOLHER
Quanto mais frequente a convivência entre pessoas neurotípicas e neurodivergentes, através da inclusão, mais fácil se torna para a sociedade reconhecer, suspeitar e identificar novos casos. E o diagnóstico correto faz muita diferença para entender as necessidades de cada indivíduo. Contudo, ressalta a neuropediatra, o diagnóstico não é simples porque as condições neurodivergentes são muito heterogêneas, o que torna essencial o acesso a um atendimento multidisciplinar.
Para a Dra. Laura, é preciso acolher a neurodiversidade e o primeiro passo é a educação. É importante conscientizar a população sobre as condições neurodivergentes, que não são raras, para saber identificar sem preconceito, combater o estigma de doença e não buscar uma cura, pois, na verdade, é preciso apenas aceitar e se adaptar às demandas que elas apresentam.
O PAPEL DOS CORDÕES DE IDENFIFICAÇÃO
Existem ainda muito estigma e preconceito em relação ao comportamento das pessoas neurodivergentes em diversas situações cotidianas, o que as deixa mais vulneráveis. Assim, para proteger, garantir direitos essenciais e tornar as condições mais visíveis foram criados os cordões de identificação.
“Quando a pessoa está identificada como neurodivergente, as outras ao seu redor tendem a reconhecer o seu comportamento sem julgamentos e até com mais empatia, compreendendo melhor as situações e as necessidades daquele indivíduo”, afirma a médica.
| O QUE CADA CORDÃO REPRESENTA . Cordão de quebra-cabeça – é a identificação mais comum e mais conhecida pela população. O quebra-cabeça representa a complexidade do transtorno do espectro autista (TEA). . Cordão do girassol – utilizado para identificar pessoas com deficiências ocultas, como TEA, TDAH, limitações cognitivas, deficiências intelectuais, surdez, asma, diabetes, entre outras. . Cordão do símbolo do infinito colorido – representa a neurodiversidade como movimento social e político pela conscientização e aceitação de transtornos mentais e/ou de desenvolvimento. . Cordões alternativos – representam as condições neurodivergentes de formas alternativas, trazendo palavras como “autismo”, ou ainda, ” mãe de autista”, “pai de autista” para aqueles que preferem se identificar em vez dos filhos. Fonte: Cartilha sobre significado dos cordões – Coletivo Autista da Universidade de São Paulo (CAUSP) |
Esse conteúdo foi produzido por meio do convênio Saúde em Dia, uma parceria entre Copass Saúde e GNSS – Gerência de Saúde e Segurança do Trabalho da Copasa.